terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sim sou pelo aborto, porque sou pela vida!

Sim sou incondicionalmente pela vida. Sim sou a favor do aborto. O argumento utilizado pelos defensores do Não à legalização e descriminalização do aborto em Portugal. Parece-me, logo à partida, muito falacioso e enganador: dizer Não porque são pela vida. E os que dizem Sim, não são, também eles, pela vida? Eu tenho uma filha linda, muito querida e desejada, nunca fiz nenhum aborto, sou voluntária como formadora numa Instituição de ajuda a jovens mães carenciadas, nunca atentei sob nenhuma forma contra a vida e sou a favor do aborto. Uma questão não tem a ver com a outra: esse é o argumento do medo e de quem não tem qualquer outra forma de sustentar a argumentação, pois todos sabemos que ninguém vai dizer que não é pela vida. Mas cabe a quem precisa decidir (mulheres e homens), saber em que condições de dignidade e de respeito para consigo próprio, e para com a sociedade, se tem uma criança. O aborto não é, nem nunca poderá ser, um método contraceptivo. E não adianta dizer que todos estão informados sobre a forma de evitar gravidezes indesejadas. O facto é que elas acontecem em todas as idades e estratos sociais. Assim sendo, temos de dar a opção de escolha se queremos ter uma sociedade mais justa e que não obrigue quem quer fazê-lo a correr riscos reais de vida e de prisão. Isto é que é ser a favor da vida e da dignidade da mesma.

O argumento médico de que desde o início da formação do embrião já existe vida, não faz sentido. Quando alguém, adulto ou criança, sofre um acidente grave em que todas as funções vitais morrem e apenas fica o coração a bater ligado a uma máquina, qual é a opção de todos? Sejam pais ou profissionais de saúde - desligar a máquina ? Sabendo que uma mãe não é uma máquina, não posso deixar de comparar os dois argumentos...

O argumento religioso de que fazer um aborto é atentar contra a dignidade da vida repugna-me e impressiona-me, porque eu conheço casos em a Igreja obriga a quem participa nas homílias a assinar documentos a favor do Não, e a assinar as suas respectivas petições, dizendo que serão proibidos de entrar nas Igrejas quem não o fizer. Então este facto não é ele também atentatório da dignidade da vida? Já para não falar de que quem faz aborto é terrorista, assassino, diabolizando-se, como noutras eras, a figura da mulher, porque quem faz os abortos são as mulheres e não os homens.

Claro que todos dizemos que é uma questão de consciência. Concordo em absoluto. Mas pergunto que consciência tem uma jovem de 13 anos, uma mulher violada, abandonada, sem perspectivas económicas, familiares ou sociais?

Será defender a vida ter-mos 15 476 crianças em instituições sociais? Será defender a vida termos muitas mais em situações familiares que todos os dias abrem os noticiários por terem sido mortas, violadas ou espancadas? Será defender a vida termos crianças exploradas, maltratadas, ignoradas, ameaçadas, sem colo e sem afecto?

Nenhum comentário:

Postar um comentário